A relação entre ozonioterapia e gordura localizada ainda é um tema pouco explorado na literatura científica.
Para ampliar esse campo de investigação, pesquisadores brasileiros conduziram um estudo clínico comparando três diferentes concentrações de ozônio em homens com acúmulo de tecido adiposo abdominal.
O artigo Clinical Effects of Ozone Therapy on Localized Adiposity: A Therapeutic Approach, publicado em 2026 no Journal of Dermatology Research, contou com a participação de pesquisadores da UNIFAE e do Departamento de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da IBRAMED.
Por se tratar de um tema ainda em consolidação científica, a publicação desse estudo contribui com dados iniciais relevantes para a discussão sobre parâmetros de aplicação, tempo de resposta e formas de avaliação clínica.
O que é ozonioterapia?
A ozonioterapia consiste na aplicação de uma mistura de oxigênio medicinal e ozônio em concentrações controladas. De acordo com o estudo, o ozônio pode interagir com componentes das membranas celulares e participar da modulação do equilíbrio entre processos oxidantes e antioxidantes, com respostas que variam conforme a concentração, o volume, a via de aplicação e as características do tecido.
Os próprios autores, no entanto, destacam que os mecanismos de ação relacionados especificamente ao tecido adiposo ainda não estão totalmente esclarecidos.
Qual foi o objetivo da pesquisa?
A pesquisa teve como objetivo comparar os efeitos das concentrações de 20, 30 e 40 µg/mL sobre a espessura do tecido adiposo abdominal, avaliando não apenas a ocorrência de mudanças, mas também o tempo necessário para que essas alterações se manifestassem.
Como o estudo foi realizado?
A pesquisa foi conduzida como um ensaio clínico randomizado, com três grupos paralelos.
O artigo informa a inclusão inicial de 30 homens adultos saudáveis com queixa de gordura localizada abdominal. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente de acordo com a concentração utilizada:
- Grupo I: 20 µg/mL;
- Grupo II: 30 µg/mL;
- Grupo III: 40 µg/mL.
Nas tabelas de resultados, o estudo apresenta 23 participantes, sem detalhamento claro sobre as perdas amostrais ao longo do acompanhamento. Os participantes foram orientados a manter seus hábitos alimentares e de atividade física, sem intervenções adicionais de dieta ou exercício.
Como foi conduzida a intervenção?
Foram realizadas oito sessões ao longo de quatro semanas, com duas aplicações semanais. A administração foi subcutânea, em pontos padronizados da região abdominal, com 5 mL por ponto e espaçamento de 5 cm entre os pontos de aplicação.
Para a geração do ozônio, foi utilizado o equipamento Ozion, desenvolvido pela IBRAMED.
Essas informações descrevem exclusivamente o protocolo experimental do estudo e não representam recomendação clínica de uso.
Como os resultados foram avaliados?
As avaliações ocorreram antes do início do tratamento e em três momentos após o término das sessões: 15, 30 e 60 dias. O desfecho principal foi a espessura do tecido adiposo abdominal avaliada por ultrassonografia.
O estudo também utilizou:
- circunferência abdominal;
- adipometria;
- bioimpedância;
- registros fotográficos;
- escala de dor;
- questionário de satisfação;
- monitoramento de eventos adversos.
As avaliações foram padronizadas e realizadas por profissionais que não tinham acesso à distribuição dos participantes entre os grupos, estratégia utilizada para reduzir possíveis vieses.
O que o estudo encontrou?
Segundo o estudo, houve redução progressiva da espessura do tecido adiposo abdominal nos três grupos ao longo dos 60 dias de acompanhamento. A principal diferença entre as concentrações esteve relacionada ao tempo de resposta.
O grupo que recebeu 40 µg/mL apresentou redução estatisticamente significativa já aos 15 dias após o término das sessões, enquanto os grupos de 20 e 30 µg/mL apresentaram respostas mais graduais.
A maior concentração produziu o melhor resultado?
Os resultados não indicam superioridade absoluta de uma concentração sobre as demais em todos os desfechos.
O grupo de 40 µg/mL apresentou:
- resposta mais precoce;
- maior redução absoluta;
- mudanças mais consistentes em algumas avaliações.
Por outro lado, o grupo de 20 µg/mL apresentou maior redução percentual final na ultrassonografia, possivelmente influenciada por diferenças basais entre os grupos.
Assim, os dados sugerem que a concentração pode influenciar principalmente a velocidade da resposta, sem relação linear direta com a magnitude final do efeito.
Houve perda de peso?
Não foram observadas mudanças significativas no peso corporal, IMC, massa magra ou água corporal total.
Esse achado indica que o estudo não demonstrou efeito de emagrecimento sistêmico, mas sim alterações localizadas na espessura do tecido adiposo abdominal.
Na bioimpedância, os grupos de 30 e 40 µg/mL apresentaram redução temporária da massa de gordura em fases iniciais, com tendência de retorno aos valores basais ao final do acompanhamento.
A pesquisa comprovou a eliminação de células de gordura?
Não. O artigo identificou mudanças na espessura do tecido adiposo, mas não realizou biópsias, análises histológicas ou avaliação de marcadores moleculares.
Por isso, os autores afirmam que não é possível concluir que houve destruição ou perda definitiva de adipócitos.
As alterações observadas também podem estar relacionadas a fatores como:
- redistribuição local de líquidos;
- variações na hidratação dos tecidos;
- respostas inflamatórias;
- variabilidade das medições.
Esses pontos reforçam a necessidade de novos estudos para esclarecer os mecanismos envolvidos.
Foram registrados efeitos adversos?
Nenhum evento adverso grave foi relatado durante a pesquisa.
Os autores observaram vermelhidão, hematomas e dor localizada de caráter transitório. A maioria dos participantes também declarou estar satisfeita com o tratamento e com os resultados percebidos.
Ainda assim, a pequena amostra não permite generalizar as conclusões de segurança para diferentes públicos e condições clínicas.
Quais são as limitações do estudo?
Entre as principais limitações apontadas pelos autores estão:
- número reduzido de participantes;
- inclusão apenas de homens;
- ausência de grupo placebo ou controle;
- diferenças nos níveis de atividade física;
- acompanhamento limitado a 60 dias;
- ausência de análises histológicas e moleculares.
Sem um grupo controle, não é possível atribuir exclusivamente à intervenção todas as alterações encontradas. Por isso, os resultados devem ser entendidos como evidências iniciais, e não como uma definição de protocolo ou comprovação definitiva de eficácia clínica.
Por que essa publicação é relevante?
A literatura sobre ozonioterapia aplicada ao tecido adiposo ainda apresenta poucos estudos clínicos com comparação direta entre concentrações. Nesse cenário, a publicação amplia a base científica disponível ao apresentar:
- um protocolo experimental padronizado;
- comparação entre três concentrações;
- acompanhamento em diferentes períodos;
- avaliação por ultrassonografia;
- discussão transparente das limitações.
O trabalho também abre caminho para pesquisas com amostras maiores, grupos de controle, diferentes perfis de participantes e métodos capazes de investigar as alterações celulares e metabólicas.
Ao participar de uma publicação sobre um tema ainda pouco explorado, o Departamento de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da IBRAMED contribui para a produção de conhecimento científico nacional e para a construção de futuras referências nessa área.
O que pode ser concluído?
O estudo indica que as três concentrações de ozônio avaliadas estiveram associadas à redução da espessura do tecido adiposo abdominal ao longo de 60 dias, com variação principalmente no tempo de resposta.
A concentração de 40 µg/mL apresentou efeito mais precoce, mas não é possível estabelecer superioridade definitiva entre as doses ou confirmar mecanismos como eliminação de adipócitos.
A principal contribuição do trabalho está na geração de evidência clínica inicial sobre um tema ainda pouco explorado na literatura científica.
Acesse o artigo científico completo para conhecer a metodologia, as análises estatísticas, os resultados e as limitações descritas pelos autores.
Lucas GCG et al. Clinical Effects of Ozone Therapy on Localized Adiposity: A Therapeutic Approach. Journal of Dermatology Research. 2026;7(2):1-8. DOI: 10.46889/JDR.2026.7201.